José de Arimatéia Rodrigues da Silva*
Mais uma vez saiu os resultados do Ensino Médio – ENEM, e me vejo cansado de novamente ter que engolir a mesma situação acontecer todos os anos, e nós professores virarmos a cara de lado e justificarmos da forma mais lavada possível que o problema dos péssimos resultados alcançados no ENEM pela Escola Professor Ribeiro está no sistema, no governo, nos alunos, na direção, em Deus, no Diabo, ou talvez até em Santa Rita. Porém, o que nós professores não conseguimos ver é que essa situação está longe de ser analisada a luz de nossas próprias responsabilidades como educadores.
Não suporto mais ouvir isto, estamos no fundo posso e eu como educador não posso mais ficar apenas no muro das lamentações como a maioria de nossos colegas de profissão ficam. Precisamos que alguma coisa seja feita e isto deve ser feito logo, agora! Já! Neste exato momento! Não temos porque esperarmos por outro momento!
É preciso acreditar que juntos de forma coletiva e solidária, possamos mudar o quadro que aí se apresenta. Simplesmente colocar a culpa em X, Y ou Z é muito fácil e não resolve nada.
Cada um de nós é que devemos a todo momento realizarmos uma auto-reflexão, uma auto-avaliação sobre nossa postura em sala de aula e perguntarmos: “Por que nós que nos enquadramos como educadores não tomamos uma posição de verdadeiros cidadãos e resolvemos coletivamente tomarmos uma providência?” Cadê nosso orgulho de trabalharmos em uma escola que segundo os próprios santa-cruzenses, se intitula como a “melhor” escola pública de Santa Cruz? Na verdade não consigo enxergar essa “melhor escola” do ponto de vista dos resultados do ENEM.
Afinal, todos nós compreendemos que: Mudar é verbo principal nesse sistema educacional caduco e viciado que é o nosso, contudo, a resistência às mudanças se faz na ordem do dia, não estou falando somente de “técnicas ou métodos”, isto pode ser explicitado em outro momento; também não estou falando da utilização conivente de discursos “politicamente corretos”; afinal, temos que ser politicamente corretos, independente do que sejamos ou ensinamos, o que quero aqui é enfatizar que o professor muitas vezes esquece que mudar requer uma dose cada vez maior de desobediência, pois “quem muda subverte, por isso mesmo choca e, invariavelmente, passa a ser alvo de críticas e punições”. (ROSA, 1998, p. 16).
Então vejam caros colegas de profissão, é necessário que tomemos uma posição imediatamente, posição essa que muitas vezes independe de sistema, de governo ou gestão escolar, ela depende exclusivamente de nós mesmos.
É necessário que nós professores sejamos acima de tudo resistentes às pressões impostas à nossa prática pedagógica deveras e ainda muito tradicional, longe da realidade do aluno, e que tem o nítido objetivo neoliberal de impedir que façamos as verdadeiras mudanças em nossa sociedade.
Falo aqui com a franqueza que me é peculiar, quem me conhece sabe que não sou hipócrita, precisamos de uma mudança consistente, que passa invariavelmente por um acerto de contas com nosso próprio eu.
Não suporto ver nosso trabalho sair pelo ralo do esgoto na hora em que o Ministério da Educação avalia nossa escola e diz categoricamente que quem está abaixo dos 500 pontos não atende a mínima qualidade de ensino requerida pelo Ministério. Esse para mim é antes do tudo o atestado de nossa própria incompetência.
Por favor observem bem, estou a todo momento me incluindo neste discurso, não entendam que é uma crítica jocosa ou meramente estratégica, como quem tem a razão na mão e somente os outros estão errados, não sou daqueles aproveitadores de momento para sentar a pua nos outros e me excluir, não sou o dono da verdade, muito pelo contrário, posso até nesse exato momento está cometendo muitos erros em sala de aula, mas, não tenho medo de dar a mão a palmatória.
Outro ponto é a questão salarial, pois todos sabem que as escolas particulares muitas vezes (não a maioria) pagam até inferior ao Estado e nós professores, quando trabalhamos com essas escolas, nos apresentamos como verdadeiros profissionais e por outro lado, quando trabalhamos com a escola pública o compromisso desaparece, a postura muda, a vontade se esvaece pelas mãos, tudo muda, logicamente para pior. Pois, tudo é motivo para fazer com que a escola pública não funcione.
Basta de hipocrisia! Ninguém entrou nesta profissão para ganhar dinheiro a ponto de se tornar milionário, também não quero aqui dizer que não merecemos ganhar o que nos é de direito. Aquele profissional da educação que tem um pouquinho que seja de vergonha na cara teria capacidade de fazer uma reflexão sobre nossa função social diante da sociedade e saber que temos sim direito a salários dignos e condizentes com nossa formação. Mas, então o que está faltando? Coerência, coesão, solidariedade, união, resgate de nossa própria dignidade.
Mas, como podemos dar uma resposta à sociedade santa-cruzense se nós não conseguimos apresentar melhorias no ensino aprendizagem de nossos discentes? Se ao menos temos coragem de resgatarmos a dignidade de ensinar!
Como posso aqui culpar mais uma vez A ou B se nós devemos, acima de tudo, procurar fazer uma reflexão isenta de ideologias, preconceitos ou mesmo credo religioso e sermos capazes de aceitarmos que nós também somos responsáveis por este resultado tão ruim e que podemos sim contribuir para mudarmos.
Afinal, quando um advogado perde uma causa, culpa-se o advogado, quando se perde um paciente vem logo à idéia de se culpar o médico e por que então, não se tem a coragem de também nos culparmos, diante de um resultado tão ruim tirado no ENEM? Por que não temos a coragem de assumir a parte de culpa que nos cabe?
Todo processo educacional, permite que seja realizado uma auto-avaliação que no caso dos professores só serve para culpar os outros, menos nós mesmos.
Sabemos que tal mudança é difícil por que não se trata de algo externo, mas de uma conscientização interior dos professores, e de todo profissional da educação que zela pela sua função social. Ser professor não é só eminentemente ter que dá aulas, professor é aquele que acima de tudo, estimula o aluno à descoberta e à procura do conhecimento, sabendo levar o aluno a uma aprendizagem eficaz sem se esquecer de ser uma atividade prazerosa.
Em nossa realidade o professor reluta em acompanhar essas transformações que a sociedade está nos impondo colocando a qualidade do ensino lá para baixo, sem se importar com a demanda de seres que de certo não conseguirão a plena cidadania.
Por favor, basta de hipocrisia e não me venham com o discurso de que a cada dois anos estamos melhorando, já que a cada avaliação melhoramos um “pouquinho” a mais, isso me parece mais mediocridade de nossa parte.
Existe ainda uma distância muito grande entre a teoria e a prática. Uma contrária a outra! Sempre soube disso. Não estamos necessariamente discordando da real necessidade que todos devem ter do embasamento teórico, afinal todo conhecimento prático necessita de uma elaboração teórica. E isto, permite superar a dicotomia existente entre saber e mudança. Como por exemplo, ensinar a ler mapas e desfrutar desta prerrogativa como atitude prazerosa? É sabido que o próprio professor muitas vezes desconhece tal atitude e inerte a idéia de que o aluno deve apenas ler os mapas por uma mera obrigação de o professor cumprir com os conteúdos programáticos de geografia. Banaliza-se assim, a própria condição do ato da leitura cartográfica que é acima de tudo interessante e prazerosa.
Essas palavras de nada servem para mudar a conduta do professor, pois toda mudança parte de uma pré-disposição interna, onde o “eu” e o “nós” se fundem e se confundem ao mesmo tempo num só. Mas, vale aqui a contribuição que possa trazer a todos, pois devemos abandonar o “certo” e buscar no desconhecido o desejo de resgatarmos o ensino. Somos então, navegadores e desbravadores insatisfeitos com esta realidade, à procura de náufragos, que possa juntar-se a nós para podermos seguir em frente como autênticos professores-educadores que sonham com dias melhores para a educação de uma sociedade que ainda não despertou para a importância deste profissional e deste segmento.
*O autor é Mestrando em Gestão e Auditorias Ambientais pela
Fundação Iberoamericana – FUNIBER/Universid de León
Especialista em Identidade Regional: A Questão Nordeste pela
Universidade Regional do Cariri-CE
Especialista em Educação à Distância: Tutoria, Metodologia
e Aprendizagem pela EADCON/FAEL
Especialista em Gestão Escolar pela EADCON/FAEL
Graduado em Geografia – UFRN
Graduado em Ciências Contábeis – UFRN
Graduando em Pedagogia – FAEL
Professor substituto de cursos de graduação
e Pós-graduação pelo INBRAD/UNP/FAPI
Professor da rede de ensino público
do Estado do Rio Grande do Norte.
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